terça-feira, 16 de novembro de 2010

Não quero dançar com outro par, pra variar, amor


          As palavras se tornaram sem efeito entre nós. Distanciaram-se como filhos que se vão e voltam em visitas raras. É o silêncio das verdades distorcidas, das crenças próprias e não acordadas que agora nos comunica. Foi você quem quis assim: um relacionamento de entrelinhas, sem divergências ou aborrecimentos. Calar, na sua cabeça, faz passar. Mas meu coração não bate desse jeito. Ele pulsa, pulsa e pulsa, com verbetes correndo em todas as vísceras, com a minha expressividade que pede fluidez. Preciso falar, mas não há ouvidos certos para escutar. Você precisa escutar, mas não tenho palavras certas para dizer.
E dessa forma, o tempo vai escoando por entre as nossas marcas de idade e companheirismo. Há espaços para mudanças, sempre, desde que não sejam no sentido contrário de nossa cumplicidade. Não admito sentimentos em marcha-a-ré.
          Apesar de minha aparência forte a todos, sou humano e também preciso que pare um segundo e cuide de mim. Aliás, quero que pare minutos, horas, dias, meses e até uma vida, se o amor desse tamanho for.
         Preciso de colo, frequentemente, embora não expresse. Preciso de beijos em intervalos nada regulares. Preciso de abraços como cura às adversidades e maldades que vejo mundo afora. Preciso que me escute, sem que eu pareça chato. Preciso de um sentimento involuntário, não treinado, que permita que eu descanse desse papel de senhor de tudo.
         Não quero cuidar o tempo todo.
         Quero seguranças de dedos nos meus cabelos.
         Quero a tranqüilidade simples da conjugação de vidas cansadas.
         Quero tudo aquilo que tenho direito, enquanto amado.
         Quero poder sofrer minhas angústias sem censura.
         Quero que você volte a me pôr na cama e me faça parar de seguir secando.
         Deixe-me dizer sempre que te amo.
         Diga-me isso sem parar, enquanto vivo.

Angelo A. P. Nascimento

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Sonho de uma flauta


Porque todos nós sonhamos, hoje me calo para o Teatro Mágico me falar...
Espero que também a todos vocês. Prometo passar por todos nesse fim de semana.
Beijos e boa noite de sexta.

domingo, 17 de outubro de 2010

Insônia

Eu só penso em tudo aquilo que poderia
Como se tudo na vida fosse passível de ser condicionado

E nem tão perto
E nem tão longe
As presenças se perdem
E não sinto mais nada.

Desejo o sono dos vencidos,
Que todo esse medo suma
Tal como flautas e palhaços
Cujas alegria e sinfonia se esvaem quando as cortinas fecham
Após seu falso espetáculo.

Preciso de silêncios
Silêncios precisos.

Cuida de mim
Para que durma todo esse impreciso eu.

Angelo A. P. Nascimento

domingo, 10 de outubro de 2010

Para falar a verdade

Para falar a verdade,
Amor,
Não existe, não,
Beleza maior nesse instante
Do que eu e esse violão
E nele percorro o som
De toda a visão de seu adormecer.

E isso, amor,
São como frases que te cobrem
E colorem seus sonhos,
Com lápis e gizes
Que fazem crianças felizes.

Eu insisto, amor,
Não acorde, não,
Fica assim
E alimenta a esperança
De que toda essa felicidade
Não tem fim.

Eu e minha tristeza
Nos contentamos em silenciar
Se você jurar
Que a noite sempre virá
E que vamos sempre dormir
Para você me acordar.

Angelo A. P. Nascimento

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Colcha de retalhos de desamor

Recolhi alguns fragmentos sobre amores que tive e não tive, em meio aos cadernos, pedaços de guardanapo e folhas avulsas que tenho guardados. Fica a colcha de retalhos, ou será que ficam os retalhos que o amor fatiou?
Abraço a todos que vêm por aqui.


O meu amor já não é mais algum gigante invencível
Ou um colosso vivo
É um menino pequenino
Dividido entre partir e ficar
Entre criar raízes ou peregrinar.

Mas não faça mais do meu amor
Essa sinonímia solidão
Não entornes pelo chão
Mais uma vez o meu coração.

O meu amor...
Vou guardá-lo numa caixa
Longe dos teus cartões,
Das tuas lembranças,
Das tuas cartas.
Vou fechar com laços
Onde eu possa nunca tê-lo
Com cheiro de guardado.

O meu amor sofre a cada minuto
Que sonolento cambaleia flácido
Adormecendo pálido no frio chão do meu quarto.
Ele não responde aos meus berros
Não há mais quem receba os seus afetos
Borra-se a imagem de minhas carnes
O dois um dia fez-se um
O um agora fez-se metade.

Acabou-se a alegria
Agora caminha caquético
Choraminga velhos momentos
E, a míngua, sofre ataques esquizofrênicos.

Angelo A. P. Nascimento
(17 de maio de 2001)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Analfabetismo

Escrevi amor nas ruas
Nas paredes que toquei
Nos lugares que pisei
No vento que anunciava chuva
Escrevi amor nos atos
Tal qual letreiro luminoso em meus lábios
Escrevi nas músicas dos rádios
Nas buzinas do trânsito
Escrevi amor na vida dos vizinhos
Nas portas dos prédios
No cotidiano dos transeuntes que vinham
Nos livros da faculdade
Nas minhas dificuldades
Na minha tatuagem
Nos troncos das árvores.

Tudo ao meu redor tinha esta etiqueta
E jurei indelével
O amor que em ti escrevi
E que não soubeste ler.

Angelo A. P. Nascimento
(28 de maio de 2001)

domingo, 3 de outubro de 2010

Reza


Senhor Deus,
Abençoa o meu punho
E permita também
Que eu permanentemente desabafe
E seja,
Junto com as palavras,
Um rio capaz de
Colocar no verbo a sensível carne
E que, afogado em versos,
Eu viva
E consiga
Ecoar o que me vem na alma
O que me debate no peito
E ser
E ser
E eu mesmo ser.

Angelo A. P. Nascimento
(2001)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Se eu fosse um passarinho


Eu sou a alegria que se encerra,
Sou a mensagem singela
Em um guardanapo amassado na carteira.
Sou a briga e a sequela,
Sou o ciúme, a revolta e a espera.
Sou a esperança abandonada,
A palavra que ficou entalada,
A atitude sufocada.
Sou o choro, o grito e a mágoa,
Sou o breque e o incentivo,
Sou a omissão e o compromisso,
Sou o amor corrompido,
Sou a sombra pela casa.

Sou parte e sou nada,
Sou a sensação dilacerada,
Sou o herói vencido,
Sou a umidade e a neblina,
Sou o barulho na janela,
Sou a perturbação e a calma.

Sou o sofá e o cinzeiro,
Sou o livro na estante,
Sou o nome sem palavra,
Sou a música, sou seus pés,
Sou a dança descoordenada.
Sou a agonia que lancina,
Sou a dúvida assassina,
Sou a fé que inspira os reinícios.

Sou a mancha roxa no corpo,
Sou o filme no finalzinho,
Sou a mordida e o gemido,
Sou um chorinho tímido,
Sou o escândalo de graça.
Sou a incompreensão e o incompreendido,
Sou o homem e o menino,
Sou o sentimento desvanecido,
Sou borboleta na vidraça.

Sou a oração desvirgulada,
Sou o sonho interrompido,
Sou o jantar de velas apagadas.
Sou a lágrima escorrida,
Sou o último olhar,
Sou a reação não tida,
A mentira e a desgraça,
O desespero e  a covardia.

Sou o surto e a lucidez,
Sou a mácula e a chaga exposta,
Sou paralítico e apressado,
Sou um coração sem as válvulas.
Sou a prisão, detento, feitor e carrasco,
Sou o enjôo dos bêbados de sábado,
Sou as lamentações das missas de domingo.

Eu sou a rede que volta do mar vazia,
Sou o filho esquecido no pátio,
Sou o problema e a maestria
Dos passos mais complicados.

Sou a guerra, sou a fome,
Sou o que vem depois de uma hecatombe.
Sou cegonhas de papel,
Sou a gravidez distante,
Sou transeunte de rodoviária,
Sou a convulsão, o espasmo e a saliva,
Sou o orgulho, o rancor e o veneno que mata,
Sou a promessa e a praga,
Sou palpável ectoplasma,
Sou a placa de trânsito quebrada,
Sou a bola errada,
Sou a decepção e a traição,
Sou as pernas encolhidas e banhadas de lágrimas.

...Mas se eu fosse um passarinho,
Eu voava para bem longe daqui.

Angelo A. P. Nascimento
(2004)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Platéia


Aos atentos e desatentos,
Eu procuro abrir os meu ferrolhos
E componho para mim,
A minha mais fiel platéia...

Angelo A. P. Nascimento
(29 de maio de 2001)

Poetinha

Eu nunca fui poetinha de ninguém.
Antes disso,
Envaidecido,
Atam-se os laços de íntima sonata,
Adormece a alma
E o corpo soletra fantasias.



Sou,
E apenas sou,
Como árvores em outono,
Que se desfolham na esperança de novos brotos.






Despedaço-me em palavras
Que me enternecem
E que indomadas buscam uma alma infinita
Na qual se depositem
Minhas tristes partes em poesia.

Angelo A. P. Nascimento

Teus olhos

Teus olhos,
Setembros encapados
De lua, cristal e alguma sujeira
Embaçam-me as idas e vindas
E minhas voltas ao redor das fogueiras.

Teus olhos,
Tempestades castanhas,
Calmaria estranha,
Calamidade íntima.

Teus olhos,
São eles que pulam
Que vendam minhas vistas
Enquanto a serenata que faço
Pendura-se em suas orelhas.

[Chega aqui, traz o pedaço de mim que esqueci dentro de seu coração]

Angelo A. P. Nascimento

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Neuroses próprias

Eu perduro minhas neuroses
Pendurando-as nas orelhas, nas narinas e em meus pelos
E busco a rua que minha janela não vê
E durmo agoniado comigo mesmo.

Eu não pratico essa paz infinita
E esse bem estar uníssono e sonoro
Pois, minhas dúvidas, ponho-as na boca
Nos olhos e nas pontas dos dedos.

Nesse caminho que todos falam seguir
Eu apenas sigo o fluxo
Esperando achar o endereço
Que nunca anotei de mim mesmo .

Eu armo minhas neuroses em um varal
Estandarte de minhas fraquezas
Onde, complexas, se organizam como partituras
De músicas de bares e botecos embargados de insobriedade.

Cabisbaixo
Quero achar aqueles trinta e dois anos
Que meu espelho denuncia
E minha alma renuncia.

Minhas dores,
Somente elas
Sabem doer do jeito delas.


[Às vezes,
E apenas às vezes,
A vida se distrai
Desse tanto tempo que nos remonta.
E nessa hora, temos um lampejo de felizes,
E voltamos a primitividade de não pensar.
Somos então libertos de tudo
E deixamos de estabelecer lógicas
Para unicamente sentir]





Deus salve os instintos
E sua capacidade de romper as monotonias.
Deus perdoe as minhas neuroses
E essa minha condição vil de racionalidade.

[Onde estou, mesmo?]


Angelo  A. P. Nascimento

domingo, 12 de setembro de 2010

Esperança






Tudo sobre a vida já foi dito
Nada sobre nós foi explicado
Sei que o mundo inteiro está aflito
Mas esse é o nosso defeito:
Dependemos da esperança.

Angelo A. P. Nascimento
(23 de abril de 2001)

sábado, 11 de setembro de 2010

Dorme, meu amor



Abri a porta
E estava ali:
O corpo aberto,
Solto e descansado,
Asas sobrando do sofá.

De repente,
Já não havia tempestades,
Já não era mais pesado o ar.

Aproximei-me vagarosamente.
Soltaria fogos,
Faria comemorações,
Mas aquela não era a hora.

Meu anjo voltou
Meu amor dorme
Dorme, meu amor.

Angelo A. P. Nascimento
(20 de abril de 2001)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Boa noite

Eu preciso me explicar pro mundo
Porque eu sou dele
Eu preciso contar uma história bonita no fim da noite
Com versos repetidos
De poesias há muito tempo escritas
Sabe-se lá o que me espera ao apagar a luz.

Eu preciso viver o dia
Carpe Diem
Com os tantos homens
Com as tantas ideias.

Eu preciso de músicas simples
De me preparar para os bons sonhos
Eu preciso de fotografias
E de uma precisa biografia
Eu preciso aprender tudo
E me sentir em todas as partes.

Eu preciso de olhos
Para quando vier o escuro
E de alguém que me embale
Para quando eu finalmente
Precisar dormir.

Angelo A. P. Nascimento
(09 de novembro de 2002)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Como, às vezes, você me dói


A espera dilui a minha tristeza
Entre as folhas das árvores
Que fazem sombra dentro de mim.

Sentado, sozinho e quieto
Percebo o quanto você
Às vezes me dói.

Mas, se eu fechar os olhos,
Eu sei que você entra,
Como em outras surpresas
Que você já fez.

Mas já fechei...
Já não funciona...

[Amor, não me deixe só aqui]

Angelo A. P. Nascimento
(2004)

Complexos amplexos




Meu corpo inútil de papel
Minha língua falha de caneta
Tu nunca leste mesmo
Os meus complexos amplexos
Que só o nosso amor publicava.

Angelo A. P. Nascimento
23 de janeiro de 2002

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Samba de segunda

Não se engane
Minha filha
Se eu faço algum sambinha
É para ver você mexer sua cintura
Se eu lhe xingo
É para você falar comigo
Se eu acordo cedo
É para ver você dormir mais
Se eu saio
É para você sentir saudade
E se demoro a chegar
É só para lhe atiçar.


 
Não se engane
Por que se eu lhe engano
É para você me encontrar
Se lhe escolho uma roupa
É só pelo prazer
De ver você tirar
E essa minha bossa
É charme para você derrubar.


 
Não se engane
Danadinha
Eu sou lobo
E não a vovozinha
Eu sou essa pessoinha
Que lhe vê virar a esquina
Inventa uma história bonita
E lhe paquera na fila do pão.


 
Sabe essa notícia?
Essa confissão?
Vou colocar no rádio e televisão
Que é só para você me procurar
Para eu tocar esse sambinha
E lhe tirar uma casquinha
Enquanto você dança na minha.


 
[vou ficar sentado
Batendo na mesa
Só para lhe olhar]

Angelo A. P. Nascimento

Se

Se não existisse
Se não me lembrasse
Se não me esgotasse
Se não se movesse
Se não chegasse tarde
Se não trouxesse um ramalhete de palavras
Se não fosse sinuosa a sua cintura
Se não fossem gulosas as suas horas
Se não fosse essa sua brancura
Se não fosse toda a sua classe
Se não fosse embora e voltasse
Eu arranjaria outro meio de lhe amar.


Angelo A. P. Nascimento

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Meus dedos em seus cabelos

Todos os dias, parece que um uma parte de nós se perde no meio de tudo. Passamos horas andando e nos reconstruindo, nos desviando do ruim, do insucesso, do improvável. 
O tarde demais, a luta que não para e todos os sonhos que amortecem e impulsionam as dores de hoje são traços dos dedos do tempo que acariciam nossa face e que marcam o nosso rosto. Flutuamos e esperamos alguém que nos puxe, que nos presenteie com realidades com as quais não precisaremos mais divagar e sonhar.
As partes que deixamos para trás, os problemas que nos amputam aquele dedo a mais de tranquilidade, tudo dói de maneira miseravelmente humana. Ora, se não somos obrigados a lembrar de nossa natureza!
E olhando a parcela de amor que já nos coube, insistimos em não nos ocupar em pensar que ainda virá mais. Apenas pegamo-nos sempre em qualquer varanda ou janela, lamentando o beijo que não foi dado, a viagem que não foi feita, o projeto que deu errado, a pessoa que não veio, o ridículo que nos prestamos, o estudo ao qual não nos dedicamos.
Torturas vêm em forma de interrogações que se debatem dentro da caixa torácica, dentro das apertadas câmaras cardíacas. O que fazer com tanto sentimento que se desvela? Qual o destino da raiva, da decepção, do fracasso, da saudade, da emergência da paixão que lateja e lancina?
E o dia continua com seu som de teclas de piano sincronizado com nossos passos. Se paramos, silêncio... Se andamos, suspense! Nada, nada senão a expectativa gira ao nosso redor, nos tomando o simples prazer do agora. E, por conta de obra qualquer, de repente viramos o rosto e vemos abraços de remetentes certos e sorrisos que carregam em si o conforto de colchões de nossa infância, com cheiro de mãe, pai e gosto de doces de avós, que se confundem com o barulho de irmãos que atravessam as vidraças que levantamos por todos os anos que nos foram dados. Desejamos tão somente, capturar a sensação tátil do rápido carinho de quem nos foi querido, como se nossos cabelos emaranhados de inocências pudessem impedir que tudo novamente se fosse e voltemos apenas a sermos quem hoje somos, pesados de responsabilidades.
E, polindo os nossos olhos, o sono da noite que chega prepara as nossas vistas, para que sempre, amanhã, possamos enxergar um pouco melhor. 
           A vida parece não ser feliz, em uma boa parte do tempo que olhamos para ela. Mas, de perto, catamos esses pequenos fragmentos de felicidade.
          Parece que nos enganamos... Toda tristeza passa.

                                                                         [Meus dedos em seus cabelos]


Angelo A. P. Nascimento

domingo, 22 de agosto de 2010

Daqui, do alto

Praia de Pipa, 30 de julho de 2010
Apregoe as suas palavras soltas
Enquanto me esgoto pelas mãos
Em cores e dígitos
Em teclas
Em telas.

Abrem-se janelas
Que emolduram meu rosto
Que observa toda a terra.

Em meus olhos, o reflexo
Do dia que cai e levanta
As pessoas que lá embaixo passam
E que, sem saber,
Do meu sangue se banham.

Angelo A. P. Nascimento

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A função das janelas


Embora não se diga,
Eu tentei te esquecer
Falei com quem podia
E me calei para tantas outras pessoas
Que jamais entenderiam
Esse alçapão de bem querer mal quisto.

Experimentei todas as formas
De não lembrar
Escrevi cartas que você nunca irá ler
Mudei de casa
Dormi com pessoas
Que nunca quis que estivessem lá
E chorei tão baixo
Para que você não me escutasse.

Acerca de mim,
Descasquei a fina camada da espera das horas,
Fiz uma fogueira com todas as palavras
Que pudessem lhe dar alguma indulgência
E continuei vivo
Às custas do calor dela.

Ainda que não se saiba
É o amor que nunca foi embora
Enferrujando sobre o parapeito
Com todas as músicas
Que tocam lá fora de mim.

Espero impacientemente
O fim dessa dor que se exaspera
Já que por todos os lados
Existem pequenas e grandes janelas
E não há um só dia
Que eu não jogue
Toda a nossa impossível vida
Delas.

Ah, se não fossem as janelas...




Angelo A. P. Nascimento
(Esqueci a data: joguei pela janela)

domingo, 15 de agosto de 2010

As revoltas de meu corpo

O meu corpo possui revoltas
Dessas que não dá para segurar.
Possui tantas arranhões,
Tantas lacerações
Provenientes apenas de escutar seu nome.

Meu corpo se ergue doído e transparente
Cheio de vazios que não se esgotam
E que sugam tudo ao redor.

Meu corpo
Perdeu a boca
E escondeu as palavras
E apenas flutua,
Deriva.

Quero riscar as agonias do meu corpo,
Tragam minhas canetas...

Angelo A. P. Nascimento

Maré Alta




Maré alta
Bate a sua falta
A lua carrega sua luz estampada
E o que as estrelas sorriem não é para mim
Você não me diz nada
Quem eloquentemente se desvela é a sua falta.

Maré alta,
A onda avança sobre seu reflexo
E de repente sou eu quem quebra
Nas suas ausências: as pedras.

Daqui, da janela,
Percebo a areia,
Seus beijos,
Seu cheiro,
Meu coração que mareia

Abro os braços,
O horizonte some,
O oceano me toma como parte
E então você cabe
Em um só embaraço.

Laço nada desfeito,
Apenas intervalos,
É dia,
É noite,
Qualquer, de tempo, espaço.

Maré alta:
É isso que você me causa.

Angelo A. P. Nascimento
12 de abril de 2000

domingo, 25 de julho de 2010

Minhas mãos

Eu não tenho milagres em minhas mãos
Ao contrário, tenho essa forçosa dor insistente
Tenho esses dedos renitentes
E linhas que se desalinham sem destino.

Eu tenho nelas
A sensação dormente de sua pele
A temperatura fria de seus cabelos
A pouca terra que seus pés deixaram para trás.

Tenho comigo o mormaço de sua boca
Tenho o desequilíbrio do balanço na rede da varanda
Tenho capturado os sons dos carros passados.

Eu não tenho nada de nobre no que sinto
Nada de justo ou coerente
Tenho essa tanta coisa que continuamente se esvazia
E me transforma em um desconhecido
Que apenas se afasta.

Angelo A. P. Nascimento

sábado, 24 de julho de 2010

Dúvidas cruéis!

Mashup da imagem por Robin e Nico Good - créditos das imagens originais - gira-discos / Dolphin Music - piza / Palatino join-us

Por que "separado" é tudo junto e "tudo junto" é separado?

Por que, quando a porta do elevador se fecha, olhamos para cima?

Por que o Super-Homem veste a cueca por cima da calça?

Por que, para quem está indo, quem está indo é quem está vindo?

Por que, quando nos chateamos, fazemos "tsc"?

Por que ovo ao contrário é ovo?

Porco olha para cima?

Anão morre?
(Nunca ouvi falar de enterro de nenhum!)

Será que, se eu der uma facada no suvaco de minha prima Sílvia, ela vai morrer rindo?

Se Maomé não vai à montanha, o que eu tenho a ver com isso?

Por que todo fim de ano a gente diz que o ano passou rápido?

Será que quando a gente fecha a geladeira a luz apaga?
(Você tem certeza????)


Angelo A. P. Nascimento

domingo, 18 de julho de 2010

Dois dedos de lógica

Quando eu era criança, ficava pensando por que as coisas tinham o nome que tinham e, se eu não achava explicação, simplesmente criava um novo nome para aquilo. Por que dente de leite se chamava dente de leite, se não era de leite? Por que a lua era de mel, quando as pessoas viajavam depois de casar? E por que as pessoas casavam? De onde vinha a vassoura? Por que não se chamava varredora e a galinha de botadora? O teatro amador era só de histórias de pessoas que amavam?
Meu pensamento pulava esses muros e me levava a indagações mais profundas. Foi assim que, pensando na Segunda Guerra Mundial, fiquei um tempão a me perguntar por que Hitler queria que todo mundo nascesse entre março abril. Ao mesmo tempo, enchia-me de tranqüilidade de saber que, se eu tivesse nascido naquela época, não teria sido perseguido, pois eu era de Áries.
 Eu pensava que Papai Noel morava em minha cidade (Natal-RN) e não entedia porque raios aqui não nevava. Jurava para mim mesmo que Jesus era brasileiro, já que na escola me diziam que ele tinha nascido em Belém e ninguém se preocupou em me dizer que não era do Pará.
Era fascinado por dinossauros, inclusive nem sabia que eles tinham sido extintos. Só sei que queria muito ir à Austrália, pois tinha certeza de que era lá que eles moravam (de onde foi que tirei que era Austrália???).  Adorava olhar para o céu e imaginar quem era a pessoa que lavava os aviões que estava sujos de nuvem, após a viagem e que consistência ela tinha. Divertido era achar que eu tinha super-poderes e ninguém sabia (nem eu sabia na verdade).
Sei lá por que escrevi esse post e por que isso aqui.
Acho que eu queria apenas lembrar que, em algum momento de minha vida, tudo tinha lógica.

sábado, 19 de junho de 2010

Eita, vida pesada!


            Experimento as incompreensões das orelhas que não escutam e da minha língua que parece falar errado. Restam-me os dedos, para discorrer sobre o ontem e o presente. Restam-me as mãos para palavrear as dores da sensação desse descontrole que a minha vida descarrilou afora.

            A quem eu peço ajuda? Rodeio-me de cadernos, livros, pesquisas e de uma ventania desajeitada. Proteção? Andar na ponta dos pés, vinte e quatro horas do dia, para não incomodar, é proteger-se? Será que falseio meu anseio de passar despercebido?

            Careço de colo e de quebras de silêncio. Preciso de mãos nos meus cabelos e de cuidados. Ando ferido, cansado, como se estivesse contrariando o que a vida toma por certo. Sinto-me como estrangeiro e secundário nas minhas próprias terras. Tento abrir portas com maçanetas que emperram. Há ferrugem nas minhas emoções.

            Eu quero um descanso de mim, de salvar o mundo e matar leões alheios. Quero ser resgatado da torre que continuamente se eleva e me afasta do chão. Quero apenas uma chance de chorar, uma oportunidade do luxo de fraquejar e poder me apoiar.

            Agora mesmo, não sei qual caminho se estende a frente e encosto-me em mim mesmo, como se, perdido, pudesse me içar do meio de minhas próprias palavras. Mas eu não me enxergo nelas. Vaidosas, elas serpenteiam por entre tantos. Eu sou mais um que se dilui.

            Quero ser entendido.

            Quero, hoje, ser humano.

            (Lá vem a chuva!)

Eita, vida pesada....

Angelo A. P. Nascimento

Prêmio Dardos 2010

            Recebi o selo do blog Palavras e Devaneios e fiquei muito feliz de vir de um lugar que traz palavras tão boas.
            Meu muito obrigado e espero poder continuar escrevendo com merecimento as coisas que se passam no fundo do meu pâncreas.

Agora vamos para as regras:

Prêmio Dardos





            “Com o Prêmio Dardos se reconhece os valores que cada blogueiro mostra cada dia em seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras."

E possui três regras:



1- aceitar exibir a imagem.

2- Linkar o blog do qual recebeu o prêmio.

3- Escolher 10 blogs para entregar o Prêmio Dardos


            Porque eu gosto de lê-los e consigo enxergar o fundo do meu pâncreas por trás de suas palavras. Abraço a todos!

Angelo A. P. Nascimento

Saudade, essa emoção desalinhada...



             Não, não é o bastante passar pela vida sem o medo da saudade. É preciso sentir a delicada agonia da substituição da presença pelas lembranças. Há de se crescer muito com ela, aprendendo a perceber a profundidade dos olhares que tornam-se vagos.
            Eu vi momentos serem construídos da maneira mais calma e arrastada e, desrespeitando todas as regras e quereres, irem-se tão rápido, como se desconsiderassem a velocidade da existência.


            Saudade, essa emoção desalinhada...

Angelo A. P. Nascimento

terça-feira, 15 de junho de 2010

Aos meus orientandos

          Não sei bem como começar isso, mas essa necessidade de falar algo a vocês é um pouco como Reginaldo citou ontem, em sua defesa. Ele falou sobre como não ser possível viver, sem agradecer. Palavras parafraseadas, mas carregadas da maior de todas as lições que podem nos trazer maturidade: a humildade em admitir que, por melhor que nos tornemos, sempre precisaremos, em algum momento, dar as mãos para alcançar uma meta.

          A construção do trabalho de conclusão de curso é um bom exemplo de um caminho percorrido a tantas mãos, e por que não dizer, regado a tanto esforço, suor e lágrimas. Essas últimas deixem-nas cair, pois elas sempre trazem flores consigo que ladeiam toda e qualquer janela que se abre para a felicidade.

          Por falar em felicidade, vocês conseguem senti-la? Acredito que a sensação de plenitude de agora é parte do dever cumprido, das tantas superações e das expectativas do admirável mundo novo que se abre. Hoje, eu estou feliz. Muito feliz, por que vocês me deram a oportunidade de fazer alguma diferença na vida de cada um, quando convidado para ser orientador ou co-orientador. Vocês permitiram que crescêssemos juntos, com horas difíceis e muita risada. Afinal, eu disse que vocês poderiam falar tudo, menos que nossos momentos de orientação não eram divertidos.

          Por que não dizer, ao fim de cada defesa, o que sinto sobre tudo e cada um? Por que só dizer agora, no último trabalho a ser defendido? Resposta simples: pela quantidade de orientandos, eu daria um vexame após outro, pois cada um tem uma forma singular de se aproximar de meu coração. É sobre isso que quero falar.

          Alanne, sua história é um exemplo de coragem. Quando olho para você, sempre enxergo a resignação em aceitar as coisas que não podem ser modificadas, trabalhando sempre em cima daquelas que são possíveis de sê-la. Seu humor e talento fazem de você uma pessoa que semeia sorrisos por onde passa: isso é um dom divino. Conviver com você é garantia de alegria.

          Akemi Guerreiro Nagashima, seu nome inteiro prenuncia força e vitória. Sua doçura, dedicação e capacidade são encantadoras. Que a vida me permita ter a companhia de muitas “Akemis”, com mãos tão firmes e cheias de vontade.

          Catherine, quem dera que todas as pessoas tivessem sua segurança em seguir em frente! Sua vocação é descomplicar o mundo, aprendendo e ensinando os que estão a sua volta.

          Daniel Brazil, será que seu sobrenome prevê que você está destinado a um país inteiro? Você é uma pessoa cheia de sonhos e são esses mesmos sonhos que movem o moinho de nossa vida. Não importa aonde você vá, seu coração será sempre o seu maior guia.

          Daniela, aqueles que chamamos de vencedores não são as pessoas que nunca caíram em meio à luta; são, sim, os que levantaram mais vezes, após tantas quedas; são aqueles que ousaram acreditar que eram capazes. Eu vejo, por trás de sua aparente fragilidade, uma força incrível.

          Higor, com sua disfarçada timidez e imbuído de respeito, conseguiu ultrapassar suas limitações. Estar aqui é resultado de algumas privações que você aprendeu serem necessárias para conseguir algo maior. Com o devido tempo, você perceberá que essas mesmas renúncias se tornarão liberdades.

          Leandra, sua personalidade forte é própria das pessoas que a vida escolheu para estar à frente das coisas, servindo de porto seguro para aqueles que vivem com você. Seu coração está sendo constantemente lapidado e o trabalho de conclusão de curso lhe deu a oportunidade de trazer à tona qualidades até então desconhecidas.

          Patrícia, talvez aqui a que mais sofreu modificações ao longo do curso. Tornar-se mãe enquanto estudante constituiu um desafio que trouxe muitos aprendizados, tenho certeza. Pela idade de seu bebê, podemos assim dizer que sua filha e você estão aprendendo a dar os primeiros passos juntas e é muito bom caminhar com um amor realmente verdadeiro.

          Paula, em você eu vejo algo do estudante da graduação que fui, quando observo sua batalha dupla em conciliar emprego e um curso superior. Em muitas ocasiões me peguei imaginando o número de vezes que você se sentiu sobrecarregada, com vontade de jogar tudo para o alto, querendo trocar o seu reino por um pouco mais de sono, questionando-se sobre ser humanamente possível chegar ao fim. Seu caminho é cheio de preciosidades, pois lhe permitiu ver valores nas pequenas coisas de nosso cotidiano. Você conseguiu!

          Reginaldo, caro e solicitado, vulgo Régis, o terror da vizinhança! A vida lhe deu uma oportunidade e você a agarrou, sempre sorrindo com tudo, diminuindo o peso das batalhas pessoais que teve que travar ao longo desses anos. Continue sempre com essa leveza interior.

          E por último, e não menos importante, Taisinha. Você está destinada a grandes coisas, porque carrega consigo uma das maiores qualidades indispensáveis para seguir rumo ao sucesso: disponibilidade em aprender. Dizem que nossa mente é igual a um pára-quedas, funcionando apenas quando aberta. A sua é assim. Não posso deixar de citar que, assim como Akemi, em muitos momentos você cuidou de mim, mesmo sem perceber. Obrigado por isso.

          É meu desejo mais sincero que vocês sejam tão felizes quanto imaginem poderem ser e que a profissão que vocês escolheram lhe traga muitas realizações, assim como tem trazido a mim.

          Esse momento especial é contraditório, pois ao mesmo tempo em que nos completa a sensação de dever cumprido, nos dividem o medo do novo que há de vir e a perda da convivência diária. Por esses dias, viveremos confusamente as nossas metades, porque uma parte de nós é festa e a outra já é saudade.

          Parabéns! Eu tenho muito orgulho de todos vocês!

          Um abraço carinhoso,

Angelo Augusto Paula do Nascimento

domingo, 30 de maio de 2010

Túmulo


Um dia,
Mais um dia
Deitado em minha cama.
A única coisa que registro
É o longa-metragem do forro do teto:
Branco,
Áspero,
Imutável.
Imutável como as angústias
Que encontraram o tão esperado refúgio em mim,
Mantenedoras da inércia
De um estado de tormento gélido,
Atemporal,
Adimensional,
Afônico.

(Um ponto preto singra
A paisagem de antes quieta,
Fazendo-me distrair
Dos sentimentos que me flagelam:
Uma formiga!
Será que a intrusa de meu filme
Se pergunta pelo sentido de sua vida?)

Em dias como esse,
Promovo uma conversa íntima
Com minha musculatura.
Falo principalmente sobre obediência.
Mesmo que em vão, no início,
Um hora ela cede
E saio da cama
Dando movimento ao que meus olhos gravam em espanto.
Novas luzes,
Novos personagens...
Mas é bem sabido o que me paralisa:
Sua ausência hedionda
Que me presenteia com cicatrizes fundas
E disponibiliza o meu corpo em tantos pedaços,
Frágil...

Não suporto mais
Essa apropriação indevida,
Essa habitação abstrata e ausente
Que você usufrui de minha carne.

E depois de tantas viagens mentais,
Volto a minha cama,
Meu túmulo diário,
Minha clausura,
Onde espero um dia
Que venhas em mácula ao meu corpo,
Pois assim estou,
Sem você,
Morto!
O que me confunde
É que paradoxalmente
Eu moro em um silencioso cemitério,
É o meu corpo que descansa,
Mas é você que todas as noites vem,
Me escarnece
E me assombra...

(Angelo A. P. Nascimento - 05 de junho de 2000)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Para lembrar por que escrevo


Que pelo sangue dos meus pulsos

Tu te esvaias

Que do alto das nuvens

Despenques de minha alma

E que de tanto eu escrever

Tu passes de dentro de mim

Para detrás das palavras.

(Trecho de "O Bêbado Apaixonado"
Angelo A. P. Nascimento)
08 de Agosto de 2001

domingo, 9 de maio de 2010

De volta às minhas letras


Porque bendito me chamaste
E todo o sentimento que me aplainava a alma.

Eras tu que, de sopapo,
Saltava de canto a canto
De minha personalidade reverberada.

Teus gritos, choros e gemidos
Arrulhavam frios nas minhas orelhas
Teus dedos macios e bêbados
Que corriam na minha pele
Quente e trêmula,
Arrepiada por suas luas cheias.

Sim, porque bendito era o teu nome
Tuas delícias,
Teu sono.

E assim, perdido e sereno,
Dormiste em meu peito arredio,
Coberto de minhas afeições inseguras.

Boa noite,
Boa noite...

Estou de volta às minhas letras...

Angelo A. P. Nascimento

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Dois dedos de prosa sobre solidão

 The gift - My lovely mirror


“Não é bom que o homem esteja só” - Gênesis 2:18


Outro dia li, no blog de um amigo, um texto sobre o cultivo da solidão. Falava algo sobre auto-preservação, sobre racionalidade e inteligência, sobre o criticismo e acima de tudo, não correr o risco de parecer “papo de solteirão convicto”.

Confesso que sorri ao ler. Incrível como as experiências nos moldam e respondemos de maneira diferente a estímulos semelhantes!

De toda forma, queria dar a minha opinião sobre solidão. Para mim, ela é algo que nos amplia uma série de sentimentos. Muitos deles são de natureza triste. Não cabe essa história de nascer só e morrer só. É martelo batido e prego virado como todos nós procuramos passar a nossa vida driblando a danada da solidão e buscando sempre um par.

Cabe, sim, que nada na vida tem acerto ou garantias. Ao caminhar, percebemo-nos nos entregando em alguns bons momentos; em outros, simplesmente nos mostramos arredios, introspectivos, machucados até, evitando esbarrar com alguém que possa nos fazer sentir aquela dor que parece que não passa, quando a saudade precede a solidão.

A solidão figura como intervalos desse passo a passo que é viver. É integrante e deve, por vezes, nos forçar a uma reflexão bem no estilo “momento umbigo”, onde nos olhamos e buscamos as respostas do tudo feito impensadamente ou de caso pensado demais.

A solidão que você fala, pode ser aquela fresta do dia em que é melhor ficar só, curtir suas bobeiras e esquisitices sozinho (é... por que todo mundo tem as suas, inclusive você, e não quer contar para ninguém!) e depois poder voltar a sociabilidade.

Uma outra pode ser o isolamento, a desolação ou auto-flagelo que nos infligimos, levantando muros, afastando pessoas e ocupando-se o tempo todo em conseguir desculpas convincentes, até para si mesmo, para justificar estar só.

Essa última aí dói. Dói fisicamente e é camuflada por nossas fugas.

Deixo claro que a felicidade não está ligada a um outro alguém. Não sou tonto o bastante para fazer de meu bem-estar um refém de um estranho. Deixo mais claro, que viemos a esse mundo para sermos felizes e que, se encontramos um alguém bacana, nos tornamos mais felizes. Se esse alguém for embora, voltamos apenas a sermos felizes.

Algumas sensações estão acima do raciocínio e é nossa intelectualidade que se exalta ao admitirmos não termos controle sobre toda a nossa intimidade sentimental. Precisamos dessa “falha nos freios”, vez ou outra, para que possamos nos sentir vivos.

Se tem uma coisa que a idade não ensina, é maturidade. Essa está ligada diretamente às experiências que vivenciamos. Não há manuais para viver. Só se aprende a viver, vivendo. Essa é uma máxima piegas clássica e real.

Nunca saberemos se tudo está dando realmente certo ou não, se não seguirmos classificando as sensações em boas ou ruins. Caímos na velha história do namoro de dois anos que acabou... Ele deu certo, por dois anos, mas deu certo ali, naquele espaço de tempo.

Uma coisa é certa: solidão é fase, não um lugar para morar. Ela é necessária para reelaborar a maneira de caminhar, mas fazer dela um ninho não é uma decisão muito sábia. Ela é um costume que perdemos, quando nos permitimos.

É preciso correr riscos, pois a vida é cheia de possibilidades!

Não estou minorizando o sofrer, apenas aceitando-o como parte de tudo.

E, para ser o mais sincero possível e com um pouco de humor, não nascemos sós. Tinha uma galera na sala da maternidade te ajudando a sair, te apoiando. Tinha mais um monte de gente lá fora, na expectativa de você chegar. Você está crescendo cheio de pessoas ao seu redor e, por mais que você goste de tomar banho sozinho ou de não dormir agarrado, tem uma hora que você cede, vai para aquela festinha e rola umas paquerinhas e tchan!!!!

Quanto a morrer só, isso não é via de regra. Há acidentes coletivos...

Chegando ao fim desse momento filosófico tosco, peço desculpas à senhora solidão, se fui rude. Seja sempre bem-vinda, toda vez que houver a necessidade de bater aquela real. Curto mesmo é ser feliz e, se temos a sorte de encontrar alguém bacana, melhor ainda.

Se já me torei no meio do caminho? Claro! Chorei as pitangas, as lágrimas e acho que até sangue. Mas sobrevivi, passei por meu luto e estou de novo na vida!

Espero encontrar vocês por aqui também.

É um ótimo lugar para estar.

Angelo A. P. Nascimento
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