quinta-feira, 25 de junho de 2009

Pequena lista das dores amorosas humanas

[Sentir algo estranho correr a espinha:
é essa a sensação de ver partir.
Uma sensação adrenérgica,
seguida de torpor e frio nas mãos,
bem própria daqueles que se drogam.]

Quero a obscuridão dos fundos oceânicos
e a sinfonia de pianos submersos.
Quero que destruam-se os demônios dessa alçada,
as fúrias e o desequilíbrio que carrego.
Quero o descanso,
mas não a morte, cama preparada.
Quero a tranquilidade de vidas cansadas
e, de fundo, uma música com vozes maternas.
Perco-me nas conversas de partilha,
nada de conforto.
Nada, a não ser cochilos e sonhos.
Dói-me sofrer o desentendimento.
Dói-me sofrer o fim das coisas
que não deveriam ser findas.
Dói-me não usar as palavras certas
e não ter o coração certo para tocar.
Dói-me buscar o que longe está,
em abrigos idosos,
viver sentimentos desacreditados pelo tempo.
Dói-me ser humano e experimentar dores divinas,
comportar e transbordar a afeição exata,
carregar o corpo
e procurar a alma,
escrever frases que não serão publicadas,
falar do sim, do não e da dor,
de sentir na veia licor de menta
e sentir os braços ofegarem por abraços.
Dói-me ter no corpo a cabeça
e guardar os pulmões numa gaiola,
estar preso a simples religiões
e ter a certeza das abstratas orações.
Dói-me saber que termina
e poder ser feliz se começa.
Dói-me ver o futuro explodir de casulos
E virar breves asas do presente.
Dói-me ver a vida parcimoniosa
alimentando pombos tristes
com migalhas de felicidade.

Angelo A. P. Nascimento
(26.02.02)
Ps.: Porque toda tristeza é epígona ao amor
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