terça-feira, 7 de setembro de 2010

Como, às vezes, você me dói


A espera dilui a minha tristeza
Entre as folhas das árvores
Que fazem sombra dentro de mim.

Sentado, sozinho e quieto
Percebo o quanto você
Às vezes me dói.

Mas, se eu fechar os olhos,
Eu sei que você entra,
Como em outras surpresas
Que você já fez.

Mas já fechei...
Já não funciona...

[Amor, não me deixe só aqui]

Angelo A. P. Nascimento
(2004)

Complexos amplexos




Meu corpo inútil de papel
Minha língua falha de caneta
Tu nunca leste mesmo
Os meus complexos amplexos
Que só o nosso amor publicava.

Angelo A. P. Nascimento
23 de janeiro de 2002

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Samba de segunda

Não se engane
Minha filha
Se eu faço algum sambinha
É para ver você mexer sua cintura
Se eu lhe xingo
É para você falar comigo
Se eu acordo cedo
É para ver você dormir mais
Se eu saio
É para você sentir saudade
E se demoro a chegar
É só para lhe atiçar.


 
Não se engane
Por que se eu lhe engano
É para você me encontrar
Se lhe escolho uma roupa
É só pelo prazer
De ver você tirar
E essa minha bossa
É charme para você derrubar.


 
Não se engane
Danadinha
Eu sou lobo
E não a vovozinha
Eu sou essa pessoinha
Que lhe vê virar a esquina
Inventa uma história bonita
E lhe paquera na fila do pão.


 
Sabe essa notícia?
Essa confissão?
Vou colocar no rádio e televisão
Que é só para você me procurar
Para eu tocar esse sambinha
E lhe tirar uma casquinha
Enquanto você dança na minha.


 
[vou ficar sentado
Batendo na mesa
Só para lhe olhar]

Angelo A. P. Nascimento

Se

Se não existisse
Se não me lembrasse
Se não me esgotasse
Se não se movesse
Se não chegasse tarde
Se não trouxesse um ramalhete de palavras
Se não fosse sinuosa a sua cintura
Se não fossem gulosas as suas horas
Se não fosse essa sua brancura
Se não fosse toda a sua classe
Se não fosse embora e voltasse
Eu arranjaria outro meio de lhe amar.


Angelo A. P. Nascimento

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Meus dedos em seus cabelos

Todos os dias, parece que um uma parte de nós se perde no meio de tudo. Passamos horas andando e nos reconstruindo, nos desviando do ruim, do insucesso, do improvável. 
O tarde demais, a luta que não para e todos os sonhos que amortecem e impulsionam as dores de hoje são traços dos dedos do tempo que acariciam nossa face e que marcam o nosso rosto. Flutuamos e esperamos alguém que nos puxe, que nos presenteie com realidades com as quais não precisaremos mais divagar e sonhar.
As partes que deixamos para trás, os problemas que nos amputam aquele dedo a mais de tranquilidade, tudo dói de maneira miseravelmente humana. Ora, se não somos obrigados a lembrar de nossa natureza!
E olhando a parcela de amor que já nos coube, insistimos em não nos ocupar em pensar que ainda virá mais. Apenas pegamo-nos sempre em qualquer varanda ou janela, lamentando o beijo que não foi dado, a viagem que não foi feita, o projeto que deu errado, a pessoa que não veio, o ridículo que nos prestamos, o estudo ao qual não nos dedicamos.
Torturas vêm em forma de interrogações que se debatem dentro da caixa torácica, dentro das apertadas câmaras cardíacas. O que fazer com tanto sentimento que se desvela? Qual o destino da raiva, da decepção, do fracasso, da saudade, da emergência da paixão que lateja e lancina?
E o dia continua com seu som de teclas de piano sincronizado com nossos passos. Se paramos, silêncio... Se andamos, suspense! Nada, nada senão a expectativa gira ao nosso redor, nos tomando o simples prazer do agora. E, por conta de obra qualquer, de repente viramos o rosto e vemos abraços de remetentes certos e sorrisos que carregam em si o conforto de colchões de nossa infância, com cheiro de mãe, pai e gosto de doces de avós, que se confundem com o barulho de irmãos que atravessam as vidraças que levantamos por todos os anos que nos foram dados. Desejamos tão somente, capturar a sensação tátil do rápido carinho de quem nos foi querido, como se nossos cabelos emaranhados de inocências pudessem impedir que tudo novamente se fosse e voltemos apenas a sermos quem hoje somos, pesados de responsabilidades.
E, polindo os nossos olhos, o sono da noite que chega prepara as nossas vistas, para que sempre, amanhã, possamos enxergar um pouco melhor. 
           A vida parece não ser feliz, em uma boa parte do tempo que olhamos para ela. Mas, de perto, catamos esses pequenos fragmentos de felicidade.
          Parece que nos enganamos... Toda tristeza passa.

                                                                         [Meus dedos em seus cabelos]


Angelo A. P. Nascimento

domingo, 22 de agosto de 2010

Daqui, do alto

Praia de Pipa, 30 de julho de 2010
Apregoe as suas palavras soltas
Enquanto me esgoto pelas mãos
Em cores e dígitos
Em teclas
Em telas.

Abrem-se janelas
Que emolduram meu rosto
Que observa toda a terra.

Em meus olhos, o reflexo
Do dia que cai e levanta
As pessoas que lá embaixo passam
E que, sem saber,
Do meu sangue se banham.

Angelo A. P. Nascimento

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A função das janelas


Embora não se diga,
Eu tentei te esquecer
Falei com quem podia
E me calei para tantas outras pessoas
Que jamais entenderiam
Esse alçapão de bem querer mal quisto.

Experimentei todas as formas
De não lembrar
Escrevi cartas que você nunca irá ler
Mudei de casa
Dormi com pessoas
Que nunca quis que estivessem lá
E chorei tão baixo
Para que você não me escutasse.

Acerca de mim,
Descasquei a fina camada da espera das horas,
Fiz uma fogueira com todas as palavras
Que pudessem lhe dar alguma indulgência
E continuei vivo
Às custas do calor dela.

Ainda que não se saiba
É o amor que nunca foi embora
Enferrujando sobre o parapeito
Com todas as músicas
Que tocam lá fora de mim.

Espero impacientemente
O fim dessa dor que se exaspera
Já que por todos os lados
Existem pequenas e grandes janelas
E não há um só dia
Que eu não jogue
Toda a nossa impossível vida
Delas.

Ah, se não fossem as janelas...




Angelo A. P. Nascimento
(Esqueci a data: joguei pela janela)

domingo, 15 de agosto de 2010

As revoltas de meu corpo

O meu corpo possui revoltas
Dessas que não dá para segurar.
Possui tantas arranhões,
Tantas lacerações
Provenientes apenas de escutar seu nome.

Meu corpo se ergue doído e transparente
Cheio de vazios que não se esgotam
E que sugam tudo ao redor.

Meu corpo
Perdeu a boca
E escondeu as palavras
E apenas flutua,
Deriva.

Quero riscar as agonias do meu corpo,
Tragam minhas canetas...

Angelo A. P. Nascimento
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