terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Culpa


Longe das cultas elaborações do vernáculo, a culpa emerge como sentimento indomado, pernicioso, persistente e doloroso. A culpa manifesta-se organicamente ativando vias sensitivas próprias do estímulo de dor, que respondem ao compasso da rejeição.
Rejeição, por sua vez, implica no ato de não aceitar, o que traduz-se em não se aproximar, não acolher, não responder ou simplesmente ignorar a presença de coisa qualquer ou outrem.
Mais do que qualquer situação, sentir-se "outrem" nos nivela à condição mundial de equidade populacional, o que geralmente desencanta a pessoa humana, que nasce e cresce em meio ao famigerado desejo de não seguir só, de encontrar o alguém que nos faça ascender da condição de igual, nos aplicada desde o singular momento do entendimento pessoal e conceitual de ser gente.
Própria dos humanos, a culpa traz a reflexão interior de que algo poderia ser diferente se uma atitude se resignasse humilde e passasse do plano imaterial para o palpável absoluto.
Trazer a culpa para si é bem mais do que ser meramente culpado. É o suspiro último que temos antes de admitir que não temos culpa. Por querer tanto algo, desejamos visceralmente, como num tipo de autoflagelação, que aquilo dependa de nossa vontade e atitude. Queremos ter o poder de mudança porque queremos que tudo se conserte, mesmo sabendo que as engrenagens do sofrimento não funcionam de maneira tão simplista; mesmo sabendo que o mundo é consertado quase sempre a quatro mãos...
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