domingo, 5 de abril de 2009

Pedaço de vida

Estrutura antiga do Açude Gargalheiras (Acari-RN) - 2008
Ele passou um bom tempo correndo atrás de si, como se um pedaço da sua vida se esgarçasse, caso não conseguisse sabê-lo de todo. Percorreu a casa toda inundado da esperança de que, por sua displicência, tivesse deixado coisas importantes para trás e que podia pegá-las novamente. Ao chegar em seu quarto, percebeu que suas infâncias dormiam ali, naquelas paredes, com desenhos de gizes de cera cobertos de demãos de tintas, que acompanharam o seu crescer. Fechou os olhos e por um momento tudo se refez, com o cheiro dos lençóis desgastados, dos almoços, dos seus cachorros que já haviam partido, do vestido de sua mãe tocando o seu rosto quando chegava da escola. Podia jurar escutar os gritos de seus irmãos quando pequenos.
E foi ali, dando-se conta da irreversibilidade de suas seguranças que ele chorou baixo, esboçando a impressão que cada parede daquele lugar o aninhava de todas as dores do mundo, diluindo suas temerosidades.
A tarde caiu então silenciosa, respeitando toda a desorientação dele e, pela janela, dava para ver que a vida não acabava em meio àquela náusea. Havia mais dias e mais lutas. Não sabia falar de suas vitórias e derrotas, portanto comungou com os silêncios vizinhos e, pé ante pé, apenas seguiu em direção ao próximo lugar, mesmo sem sabê-lo qual seria.
Na porta da casa, voltou-se para trás e fechou-a acariciando a maçaneta meio velha. Verificou o piso embaixo de seus pés e concluiu que aquela cor surrada o confortava. Andou pela lateral da edificação com as mãos rentes, deslizando na superfície áspera e esta foi a única sinestesia recuperada legitimamente.
Assim, com o vermelho da tarde em seus olhos, ele partiu.
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